– ZÉ ARAPIRACA, O AVEXADINHO

Faria 70 anos, no dia 25 de março próximo passado, nosso Zé Arapiraca, o velho Arapira, como Menandro costuma nomeá-lo.

Por nostalgia, amanheci esse dia folheando papeis antigos, identificados de farrapos importantes. Foi aí que me deparei com um hilário e consistente e-mail do Professor Roberto Albergaria, para Nelson Pretto, amargando o falecimento de Felippe Serpa “pirraça do nosso amigalhão” que finaliza: “Mais em especial, um amigo tão bacana que nos faz tanta falta hoje, como fez o avexadinho do Zé Arapiraca ontem. Sacanagem, Felippe, você não podia ir antes da gente também!”

Nunca vi apelido tão parecido com o dono como esse de Albergaria para Zé. Era avexadinho aquele cidadão. Tinha muita pressa, o que o fez viver muito mais que seus 54 incompletos aninhos. Correu a favor do tempo, não precisando de nenhuma CAPES da vida para produzir e fazer produzir sem se repetir.

Mas era avexado em outras coisas como: fazer-se o jardineiro da Faculdade de Educação, o homem do dedo verde, semeando e vendo brotar nela todas as cores possíveis; amar e solidarizar-se com o outro. Sobre isso, eu e minha amiga Ana Luz descobrimos coisas curiosas. Certa noite, depois de uma farrinha com café preto e biscoito chimango, de tanto falar nos repentes de Zé, resolvemos curtir a saudade visitando alguns bares de sua preferência. Como não é segredo pra ninguém, Zé não sorveu toda a “geladinha” do mundo, mas bem que se esforçou. Assim, o boteco era seu reino. No Bar do Garcia, instituição que hoje amarga o destino de casa de produtos naturais, chegou a nós a narrativa que faltou ao “Crime e castigo” de Dostoievski:

“Este rapaz ao lado de vocês é um doente mental que eu continuo dando uma refeição diária em respeito a Arapiraca. Ele, aquele homão, toda semana dava banho e cortava o cabelo desse cidadão. Além, é claro, de nos pagar por sua quentinha e café da manhã. E olha que ele vinha conferir”.

Saímos dali cantando “para que chorar o que passou…” uma preferência do nosso avexadinho, com a convicção de que o outro para Zé era o próximo mesmo, aquele que estava à sua frente, o mendigo, o bêbado, o doente, que a sociedade condenou ao exílio na sua própria pátria, seres concretos que têm fome e sede de justiça.

Apesar de possuir gestos largos e voz potente, os seus atos cotidianos de amor eram pequenos, discretos, silenciosos, quase ocultos, quase sem testemunhas.

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