– TEXTO COMO PROVA DE AMIZADE

TEXTO COMO PROVA DE AMIZADE[1]

 

Marcel Proust (1871-1922), reconhecidamente grande representante dos escritores franceses, autor do romance em sete volumes Em busca do tempo perdido, obra prima da literatura mundial, oito anos antes da publicação do primeiro volume dessa obra – No caminho de Swann – produziu um prefácio à sua tradução do livro Sésame a les lys, de John Ruskin, premiando os leitores com um poético ensaio acerca da leitura. Esse prefácio foi, posteriormente transformado no livro Sur La Lecture[2], ao ser considerado, por um editor, superior ao próprio livro que prefaciara.

Com intensa análise sobre leitura, leitores e naturalmente sobre o pensamento de Ruskin, e introduzindo em meio a um tecido pontuado de reminiscências das leituras da infância, esse livro oferece o panorama que funda o universo do leitor/narrador Marcel Proust.

Na tentativa de falar sobre leitura, Proust se surpreende falando de outras realidades. E fala exatamente sobre aquelas que permanecem e que afetam o lado psicológico do ser. Isso nos faz inferir que essas imagens introjetadas constituem-se no pano de fundo, na matriz, na base da formação do leitor. Não ficam, portanto, somente as lembranças, mas o valor que elas possuem para formar o apego à leitura. É como se não ficassem somente as coisas externas, mas também e, sobretudo o resultado disso cuja apreensão não passa apenas pela inteligência, mas pelo que existe de mais subjetivo no sujeito. Não é, portanto, da ordem da representação cognitiva, não é simplesmente um gravar de imagens que se confundem com tantas outras, mas daquelas específicas que tocam a sensibilidade, os sentimentos, as emoções.

Indagamos: será que as pessoas que ultrapassam a infância sem contingências, sem “tempo perdido” durante suas leituras não se constituem exatamente naquelas com maiores dificuldades de se formarem leitoras?

Ao discutir a tese de Ruskin, Proust critica o papel preponderante que aquele atribuía leitura – “conversação entre eruditos e sábios, ato mais interessante do que a conversação com os que nos rodeiam”. Ao questionar especialmente essa última posição, Proust afirma que a diferença entre a leitura e a conversação está na maneira como nos comunicamos com um livro e com um interlocutor, e não na maior ou menor sabedoria que encerrem.

Nessa direção, compreende que um dos grandes caracteres das belas obras reside na provocação de desejos nos leitores e não na oferta de respostas e, assim sendo, elas possuem um papel tanto essencial quanto limitado na nossa vida experiencial. No momento em que o autor, através do seu texto, diz-nos tudo que pode dizer, provoca em nós o sentimento que ainda há muito para ser dito. Incita-nos a buscar “a verdade” e nos faz compreender não ser possível recebê-la de ninguém, mas que devemos criá-la nós mesmos.

Sobre leitores o texto refere-se ao letrado como aquele que lê apenas para reter o que leu. O livro, para esse leitor, se constitui em objeto estático de adoração, cuja dignidade não está no pensamento que é capaz de despertar, mas nos fatos que é capaz de comunicar. Proust considera “doentia” essa forma de “respeito fetichista” pelo livro. Observou que os espíritos permanentemente abertos a todas as emoções do mundo, ao contrário dos letrados, acabam por tranquilizar-se quanto aos perigos da erudição e da “bibliofilia” que ameaçam mais a sensibilidade do que a inteligência.

Ao admitir que o gosto pela leitura cresce com a inteligência, admite também que seus perigos diminuem com ela e explica que isso se deve à capacidade que um espírito original tem de subordinar a leitura às suas necessidades pessoais.Nessa direção, a leitura colabora com a educação e o enriquecimento do espírito, inclusive por que promove contatos com as emoções de outros espíritos.

Proust considera a relação do leitor com o texto como uma forma de amizade sincera, desinteressada e desembaraçada das hipocrisias que trazem outros tipos de amizade estéreis e fatigantes. Essa parte do livro, em nosso entendimento, propicia uma importante inferência pedagógica: a escola não deve estimular o aluno a ser concessivo nas leituras. O leitor ou o aprendiz de leitor não precisa viver falseando amizades com os textos. Logo, é preciso que o aluno exerça o direito de acolher ou rejeitar um texto, para tecer seu caminho de amizade.

Surge a questão/desafio: como construir, no ambiente escolar, espaços para que a pessoa constituir a sua história de leitor, vacinado contra imposições (pré) conceituosas, (pré)estabelecidas de esquemas editoriais como os paradidáticos ou coisa que tais?! O aluno que tece a sua história de leitor a partir da sua subjetividade, e vice-versa, vai acolher ou rejeitar um texto não simplesmente por ato de voluntarismo, mas como resposta própria, constituída em conformação com seu desejo.


[1] Publicado no Jornal A TARDE, no caderno 4 – A TARDE Cultural, em 09/04/2000, p. 12.

[2] PROUST, Marcel. Sobre a leitura. Trad. Carlos Vogt, Campinas, SP: Pontes, 2ª Ed., 1991.

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