– NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM

Numa das últimas aulas de Polêmicas Contemporâneas, disciplina que eu e Nelson Pretto criamos e ministramos na FACED/UFBA, dois vídeos colaboraram com a discussão sobre limites e possibilidades da informação e da mídia eletrônica nas decisões políticas da população. No primeiro[1], Lázaro Ramos entrevista Muniz Sodré e Miguel Vassy, vale conferir. Entre as tantas considerações dos entrevistados, um detalhe posto por Vassy, se impõe: “é preciso que, em alguma hora, desliguemos a televisão para conversar com nossos filhos”. No segundo, “Um vulcão de ideias”[2] – também vale conferir. Darcy Ribeiro, polêmica e brilhante figura da história da educação nacional, faz inusitada confissão: “tive a sorte de ficar órfão de pai aos três anos…”. Isso lembra-nos “Os irmãos Karamazov”[3]. Só que Darcy Ribeiro é muito nosso íntimo, diferentemente de Ivan Karamazov e seus dois irmãos, personagens do romance de Dostoievski.

A polêmica se instalou e os conflitos familiares nas sociedades contemporâneas fizeram-se bom aperitivo. A questão da figura do pai e, com ela, o antigo “complexo de Édipo” foi especialmente considerado. Disse baixinho a Nelson: seria ótimo que Jacy Soares e Dinéa Muniz estivessem aqui para colaborar com as discussões. Quem sabe outro dia, respondeu Nelson.

Como nada acaba onde começa, vim para a companhia da meia-noite matutar os discursos na nossa “polêmica”. E o travesseiro se encarregou de evocar narrativas bem distantes, como a de um meu amigo, a qual faz contraponto com eventos familiares que a mídia vem revelando, nos quais filhos matam pais, pais matam filhos.

O caso de meu amigo ocorreu na cidade de Caetité, terra natal de Anísio Teixeira. O pai, seu Adhemar da Rocha Ramos, contemporâneo de Anísio Teixeira, fazia parte da comunidade dos amantes da leitura. O nome do filho eu deixo para o leitor decifrar. Sei que há muito aprecia um gorro vermelho. Como diria minha mãe, o que é não vem de agora, tudo tem memória. Sete era a sua idade quando isso se deu. O número é sempre mágico: sete são as notas musicais, capazes de inundar o mundo de canção. Sete são os dias da semana, que se repetem em horizontes de arco-íris, cujas cores são sete. E sete são os tão humanos pecados capitais, cada um com sua singular sedução.

Véspera de Natal. Embora sempre muito precoce, também amava o bom velhinho São Nicolau. E como nos anos anteriores, passou longos instantes imaginando a surpresa que o aguardava. Passeou pelas possibilidades: “Totó”, não o personagem da novela da Globo, mas aquele tabuleiro de futebol de salão. Quem sabe, bicicleta, jogo de botão, carrinho de mão, quebra-cabeça de quinhentas peças, jogo de memória.

Dia seguinte, o presente na janela, e nela uma pontinha de decepção. Sem eufemismo, o moleque amargou mesmo foi um puto desapontamento.

Pois é, caro leitor. Ao invés de um objeto com o qual ele pudesse brincar com os companheiros da esquina, o pai lhe dera um para brincar com sua soledade. Presenteara-o com “O Saci” de José Bento Monteiro Lobato, sem tirar e nem pôr. Não veio embrulhado em papel de presente porque fazia parte da seleta estante de seu Adhemar, que por certo, talvez até sem conhecer Ítalo Calvino, já suspeitava como ele, “(…) que cada um de nós não é, senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? ”[4]. Não veio também com nenhuma norma ou controle da leitura. Como tantos outros milhões de brasileiros que forjaram seu alicerce leitor no site do Picapau Amarelo, o mundo mágico criado pelo pai da Emília, a boneca gente, para que, as crianças pudessem ler e morar como ele morou no Robson Crusoé e n’Os filhos do Capitão Grant[5], seu Adhemar não iria torturar seu filho com instruções de qualquer ordem. Sabia esse pai zeloso que a leitura literária é território exclusivo do leitor, o qual, dono de seu nariz, não precisa da tutela politicamente correta de ninguém para desenvolver seus processos de subjetivação.

Portador daquele objeto estranho, ao invés de chorar como fazia um sobrinho meu quando ganhava roupa de amigo secreto, o homenzinho de sete anos tomou posse d’O Saci e imediatamente o leu de cabo a rabo. E de cabo a rabo descobre em Lobato um aliado do universo infantil, um porta voz da criança que busca superar normas, limite e valores repressores para assumir o desejo de criar a própria realidade. Do rabo, isto é, do finalzinho do livro a maior emoção, aquela que ainda o acompanha: um raminho de miosótis que o Pererê deixara sobre o travesseiro de Narizinho. “Miosótis em inglês é forget-me-not – que significa não te esqueças de mim”.

Mutatis mutandis foi o que aconteceu no Natal de 1991 com Ciro Arapiraca, nove anos. Dessa vez, com “Os miseráveis” de Victor Hugo e a seguinte dedicatória: “Para Ciro, neste Natal, refletir, na miséria, a possibilidade de transformá-la com o seu carinho e amor” seu pai Zé. Além dessa bela entrega, não havia nenhum manual de leitura. Como seu Adhemar, o pai de Ciro também sabia que a liberdade do leitor não pode ser espoliada com breviários de qualquer ordem. A reação do moço ganhador do volumoso presente não foi muda como a do amigo da história anterior: “meu pai é doido demais, me dá um livro de 516 páginas, sem uma gravura”. Demorou um pouco mais para começar a leitura e a fez dois anos depois, imediatamente após a morte do pai, como se estivesse resgatando uma dívida.  E também leu sem parar, como o fazem todos os que iniciam a leitura d’Os Miseráveis.

Esses cenários de Natal com o apelo que aqui repito – NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM, apontam o reconhecimento simbólico dos papéis de pais e filhos expressos em  raminhos de miosótis – forget-me-not.


[1] Programa Espelho. Apresentação e criação: Lazaro Ramos. Direção: Anderson Quak
Direção do episódio: Joyce Santos
Nome do episódio: O Poder da informação. Entrevistados: Miguel Vassy e Muniz Sodré.
Canal Brasil.

[2] Educadores Brasileiros
Darcy Ribeiro (Um vulcão de ideias) Televisión América Latina e TV Escola, MEC

[3] DOSTOIEVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamazov. Ed. 34.

[4] CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 138.

[5] Trecho de uma das cartas de Lobato a Godofredo Rangel in: LORATO, Monteiro. A Barca de Gleyre, São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.

 

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