– CUCA, MÃO, CORAÇÃO

Anna Amélia Marback
Mary Arapiraca

De todos da rua, Turuca era o mais velho. Lili, Palito e Fafá o acompanhavam nas pintanças, travessuras. Frequentavam o Grupo Escolar Barão de Macaúbas. D. Sidô ensinava a ler, escrever e contar. Às vezes levava uma hora falando sobre cumulus, humilis, congestus e outras coisas difíceis que aprendera nas aulas de ciências de Dr. Barreto, na Escola Normal.

– Pró, que cheiro mais gostoso cê tem! – costumava dizer Turuca, que sonhou com ela, em trajes menores, numa noite. Turuca era órfão. Morava com tia Candinha, que lavava roupa de ganho. Seu trabalho lhe garantia o pão diário. Contava com o sobrinho no leva-e-traz das trouxas.

Vivia a meninada sonhando com a chegada do circo Star light que em bairro vizinho se instalava durante dois meses por ano. Era uma alegria ver a linda equilibrista no alto. Gostavam da animação do poleiro, onde atualizam o repertório das anedotas. Seu Maneco, o gerente, era durão só na aparência. Tinha coração grande. Distribuía ingressos para as matinês de sábado e domingo.

Naquele ano, o circo com alto-falante não circulou no bairro anunciando a temporada.

– Que coisa mais sem graça! Resmungava Palito.

– Talvez o Star light ainda apareça – procurava Lili consolar Palito.

Estavam Lili, Palito e Fafá conversando na praça. Traziam nas faces a expressão de expectativa, acreditando que naquela tarde ainda escutariam a notícia de que o circo chegara.

– Não vem este ano, quer apostar? – falou Turuca, provocativo; e acrescentou: Tenho uma idéia, vamos chamar a patota da rua Dorival Caymmi e do beco do Mingau.

Este último, assim chamado por causa de D. Chica, que vendia todo tipo de mingau gostoso.

– Ok – acrescentou Fafá. – Com mais gente se pode fazer muita reinação. Basta entrar no sitedopicapauamarelotodojunto.com e seguir as instruções da boneca de olhos de retrós pretos, feita por tia Nastácia.

– É da Emília que você está falando? – perguntou Palito, que antes de qualquer resposta foi à procura da turma das outras ruas. Nesse instante, passou na pracinha Dedinha, irmã de Fafá, universitária assumida.

– É inteligente e muito gente aquela menina! Vai ser doutora – costumava comentar D. Iazinha, a avó.

Tomada de espanto, vendo tanto menino reunido, Dedinha imaginou fazer qualquer lunacidade com as crianças. Ultimamente, além de frequentar o sitedopicapauamarelotodojunto.com, curtia colocar em prática conhecimentos do curso de psicologia.

– Quer lunar, turma? – perguntou com a sua voz doce, quase melodiosa.

– Só se for agora! – gritaram contentes, os emilianos.

– Vamos colocar barro, pedra, água, pauzinhos na lua de nossa rua, que nunca precisou anoitecer para aparecer, e ver o que seremos capazes de fazer!

Barro, pedra, água, pau… caminhavam do coração para a cabeça, da cabeça para as mãos, das mãos para a cabeça, da cabeça para o coração…

A força da água transformava o branco no preto, o preto no cinza, o cinza no azul, o azul no rosazulado, o rosazulado no verdevida azul de vidaquador de riorbeirmar nas canções de quem fazia.

O líquido se fez em sólido, o sólido se fez em formas de criança, engenho e sonho de menino com coisas simples e belas que estão em toda parte, nunca vistas fora da arte.

O circo não veio naquele ano, e a alegria da meninada fez-se pela cuca-mão-coração.

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