– CELEBRANDO A CANÇÃO CECÍLIA

CELEBRANDO A CANÇÃO CECÍLIA[1]

Não tenho medo de nada. Que bobagem, tenho medo de quase tudo! Primeiro dia de aula é uma tortura, embora um grande conferencista tenha afirmado recentemente que aula é babaquice – será mesmo? Ao menos, não generalizaria. Qualquer palestra, comunicação, representação é sempre o maior dos sufocos. A maior vontade é ver no raiar do dia seguinte que ainda estou viva. Sou tão fanática com minha coleção de medo que chego a tê-lo de não tê-lo mais. Meu Deus, que seria de mim sem meus medos! Meu querido leitor (quem será?), quando exagero, só a poesia me salva. Só ela, sem censura, permite-me mergulhar na mais profunda loucura. Ainda bem que loucura rima com leitura, literatura, candura, feiúra, pintura, fratura, fissura escultura, cura, lisura, finura, largura e até estrutura.

Se lhe disser que um dos mais recentes está relacionado com a nova realidade que emerge através da cibernética e que não possuo a menor capacidade para dar conta, embora Nelson viva ameaçando me iniciar nesse mundo. Observava, outro dia, meu amigo Menandro escanear um retrato de uma quase sexagenária e, em atos generosos e pitorescos, compor-lhe um admirável perfil, um milagre de perfeito cirurgião das plásticas. Mas não era só. Seu movimento na telinha do computador eram tão ágeis e espontâneos, que parecia estar brincando de Deus. Isso deu um nó em minha cabeça e, com timidez, comecei a perceber o quão imprevisível é a conjugação de nossa vivência do real com a realidade virtual. E aí quase matei meu amigo de susto com um grito de urgência – Uau! Gente! É fundamental voltarmos a trilhar os caminhos do pensamento e da poesia.

O socorro peço a Cecília Meireles que no dia sete de novembro próximo passado completou o seu centenário (1901-1964). Ela consegue definir para nós todo o sentido do fazer poético no livro Viagem. Em

EPIGRAMA Nº 1

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que
inutilmente
quando por ele andou seu coração.

Primeiro poema desse livro, a serenidade, a placidez. Palavras leves – pousa – toca de leve, não machuca. Sonoro e silencioso – mesmo o sonoro não faz baralho, não é alto; soa como se fosse música de fundo, presença ou ausência de som. Flor do espírito, desinteressada e efêmera – dão um tom suave, como se fosse um papel de seda de leveza. Canção – é a poesia. Por que fazer poesia sobre o que se passa na frente, esses espetáculos infatigáveis? Por ela, os homens te conhecerão:/ por ela os tempos versáteis saberão/ que o mundo ficou mais belo… Tempos versáteis, tempos mutantes, flutuantes, podem ser todos e quaisquer uns e também dão esse tom de leveza. Sempre numa perspectiva de futuro, saberão, é possível no futuro lhe conhecer. O mundo fica mais belo quando tocado pela poesia. Mas a poesia não tem utilidade – ainda que inutilmente. Seu papel é semear leveza, espalhar beleza, tocar levemente, mesmo que seja inútil. Dar sentido às coisas. Mas dar sentido não é ser útil. O importante é tocar o mundo com a canção.

Em motivo, a reafirmação do por quê do fazer poético. O próprio sentido do existir é fazer poesia. A poesia é eterna, nem a morte importa. Interessa que o instante existe. Mais uma vez, o importante é tocar o mundo com a canção.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e a asa ritmada.
E um dia eu sei que estarei mudo:
– mais nada.

Todo o poema é feito de paralelismo. Não sou alegre nem sou triste; não sinto gozo nem tormento. Vai trabalhar o sentido da poesia. E o sentido é praticamente não ter sentido nenhum. Simplesmente o fato de existir é que é motivo de cantar.

É um poema que chega a permitir uma alienação do mundo, alienação no bom sentido, no sentido de alheamento, de serenidade, placidez frente às coisas. É feliz no simples fato de existir. Completa. As paixões não a movimentam, é movida pela contemplação. A condição de ser poeta transcende às paixões humanas. Enquanto poeta, o sujeito é irmão das coisas fugidias – o humano sofre com o que passa.

No seu livro Cânticos, o nº VI chama atenção do humano para o seu medo mais radical.

Tu tens um medo:
acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Acho que aquela quase sexagenária gostaria de se eternizar, nem que seja na foto de Menandro. Mas, mais do que isso, ela gostaria de junto com Dinéa e Licinha, Menandro, colegas da FACED/UFBA e, com Idalina, colega da UFRJ/Letras, propiciar muitas oficinas de criação literária – à semelhança da que fizemos na VIII Semana de Estudos Anglo-Germânicos/UFRJ – pois acredita, piamente, que elas se constituem em espaços para o estudante tomar posse de aprendizagens e capacidades especiais como flexibilidade, pensamento divergente, e em lugar para exercer o desejo de produzir e mergulhar em sua loucura. Aliás, essa senhora sonha mais alto. Sonha que as atividades em oficinas devam permear as práticas educacionais em todos os níveis escolares.

Ela acredita que desenvolver o agente poético que mora em cada um de nós e em nós todos é uma boa maneira de celebrar a poética de Cecília Meireles, sempre eterna Cecília Meireles.


[1] Publicado no BOLETIM Inter CULTURAL. APA- Rio – Associação dos Professores de Alemão do Rio de Janeiro, 7º ano, nº 27 – setembro/outubro/novembro/dezembro de 2001, p. 4-5

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